sexta-feira, 21 de maio de 2010

Identificando (se) - por Ariela Sales

Chegada segunda-feira – céus, a manhã de segunda-feira – segue Janaína em sua odisséia pré-trabalho; levar consigo os três relógios quebrados que juntos não resultam em um que preste, procurar pelo passe de ônibus nas suas 12 bolsas, enrolar a maçã em um guardanapo, pôr a comida do Alfredo e um lembrete em seu celular para não esquecer as chaves de casa no trabalho.

E... Rua, finalmente! Ah, sim, aquela efêmera sensação de liberdade sentida nos passos de uma pacata calçada a outra, que nem mesmo todo o barulho dos carros e transeuntes da avenida principal podem lhe tirar. Liberdade, claro, presente só até o momento em que chega o bendito 301 cheio de pernas, braços e bolsas lotados de afazeres que não se intimidam se você se sente preso, se tem pressa, ou mesmo se se sente livre, como era o caso de Janaína.

Mas é isso; sobe, fica em pé, ora sente cheiro ora sente odor dos passageiros do Sol das 7 da manhã, esbarra em um conhecido e se refugia, em todas as freadas, dos tarados da inércia. É assim toda manhã e logo Janaína se lembra da mãe dizendo: “Olhe, ônibus é uma parte do mundo todo, viu?” mundo esse que, por sinal, sempre acha de se meter no meio da vida dela e do menino que senta na terceira cadeira da frente – sempre na janela – que sempre sobe na praça da paz e desce na UFPB, com bolsa de carteiro.

Será que esse seria o dia em que ela finalmente ia conseguir, ‘sem intenção’, se esbarrar nele?! Bem que ela ajeitou os saltos que sempre lhes saltavam dos pés, levantou os cílios com os dedos e a apertadíssima calça jeans com as mãos, no entre-espaço de um passageiro e outro até...que o ônibus cortou sinal, freou em cima da parada, fez o tal menino descer e deixou Janaína dependurada entre uma cadeira e outra, com todo o improvisado glamour tendo seu efeito cortado pelo motorista, que sabia, não tinha coração!

Mas pensou que seu plano podia ficar pra amanhã, que seria o mesmo de hoje e ontem... Ai, confusão de todos os relógios da Janaína! Inclusive os mentais. Mas bem, pensou em seguir tranqüilamente o caminho da Av. Dom Pedro II e lembrou, de súbito, que teria de descer no Centro antes de chegar ao trabalho e fazer sua carteira de identidade, roubada na semana passada na bolsa que era a sua décima terceira.

Desceu, seguiu e entrou na Casa da Cidadania, onde faria seu documento. A atendente, daquelas que acreditam que simpatia não faz parte de nenhum serviço público, de supetão fez-lhe 2379 perguntas das quais Janaína respondeu normalmente até chegar na menos esperada:

- Estado Civil, senhorita Janaína? Bem deve ser solteira, com o sorriso desse tamanho, pra não desagradar ninguém.

- É rosto de quem anseia e não de quem espera feito a senhora. Com licença e bom dia.

Janaína seguiu irritada com a situação ocorrida e sem entender o “bom dia” no fim de seu diálogo. Sem entender ainda mais a reação da mulher-do-atendimento-mal-amada, passou a pensar se havia cabimento no que ela disse.

Constatou que sim, em parte. Ela esperava todos os dias pelo menino do ônibus. A mulher talvez tenha esperado toda a vida. Sua colega do setor de química, meia-vida. O vizinho do prédio, talvez alguns minutos entre uma vizinha e outra. Por fim, chacoalhou a cabeça para pôr as idéias em ordem. Aceitou. Sim, estava à espera, como um dia todos já estiveram.

Mas sabia que não precisava escrever isso em nenhum documento de identificação.


4 comentários:

  1. Já na hora de ir pra cama Janaina pensa que o dia não passou...que nada aconteceu ♫

    ResponderExcluir
  2. " mas ela diz, que apesar de tudo ela tem sonhos. Ela diz, que um dia a gente há de ser feliz..."

    ResponderExcluir
  3. "Se Deus quiser!!" =D Um beijo para todos que visitam o @papodeencalhada!

    ResponderExcluir
  4. HAHAHAHHA,Ariela tá se achando né? Jurando que vão aparecer fãs e pedir autografos pra ela.

    ResponderExcluir